quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

De janeiro a janeiro, por mais mil anos

Escrevo durante a virada de ano, com fones nos ouvidos. Não que eu não goste de reuniões, mas, particularmente, escolhi um ano novo de pijamas. E apenas alguns minutos estão prestes a me conduzir a 2016. Provavelmente, você já lerá esse texto em um novo ano. Esse momento me apresentou a dor e o fascínio que movem o tempo. Um segundo e nos transportamos para um novo tempo, repleto de novas esperanças. Psicologicamente, nos sentimentos renovados.

Seria esse eterno retorno aquilo que essencialmente nos marca, nos move? Prefiro não pensar em essências. Mas, enquanto escrevo esse texto, duas músicas passaram pela minha playlist: De Janeiro a Janeiro, na voz de Nando Reis e Roberta Campos, e A Thousand Years, cantada por Christina Perri. Coincidentemente (existem mesmo coincidências?), duas músicas que têm o tempo como seu pretexto. Seria possível que o amor, outro grande pretexto de ambas as músicas, durasse "de janeiro a janeiro, até o mundo acabar"? Seria possível amar "por mil anos e por mais mil"?




Talvez a solidão do meu quarto, nas proximidades da meia-noite de ano novo, esteja mexendo comigo. Provavelmente está. E as músicas me afetam de um jeito particular. Porque vivo uma relação nem sempre conciliada com o tempo. O tempo, por vezes tão turbulento, o tempo de espera, por vezes tão longo. O tempo que nos quer reconciliar com os lados de dentro e de fora de nós mesmos. Estranho um aprendiz de historiador que tem uma relação tão difícil com o tempo... Ou seria estranho se eu tivesse uma relação mais pacífica?


Provavelmente esse texto só fará sentido para mim mesmo. Reflete uma transição de ano que é muito minha. Reflete a maneira como duas músicas me afetam de um jeito que é só meu. Reflete uma relação não-reconciliada com o tempo que é apenas minha. Reflete, mais do que nunca, que ainda não perdi a esperança de que esse tempo de espera me mostre que faz sentido, que é importante esperar.

2016, mais do que qualquer um, é um ano que começa com minha valorização do tempo de espera. Do tempo que busca uma reconciliação. O tempo de um jovem que enxerga, ao mesmo tempo, alguns, ainda que poucos, fios branco no cabelo, e que sente que guarda dentro de si uma criança interior. O tempo de quem precisou viver de janeiro a janeiro para perceber um outro nascente. De quem olhou bem dentro dos próprios olhos, e arriscou um sorriso de quem torce para que o universo conspire a favor.

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