domingo, 27 de dezembro de 2015

La Vie en Rose

Arthur acordou no meio da madrugada e olhou para o visor do celular ao seu lado. Três da manhã. Ele ainda tinha um resto de noite inteira, e uma manhã sem muitos compromissos para dormir nesse período de férias (férias?) que vivia. Deitou novamente e tentou dizer para si mesmo que era possível voltar a dormir, mas os pensamentos venceram. Ele levantou-se de sua cama, foi ao banheiro e olhou-se no espelho. A visão era embaçada pela falta dos óculos, mas dava para ver o cabelo, desgrenhado pelo travesseiro, e a barba por fazer. Aqueles resquícios de barba eram um de seus amuletos. Ele gostava de mantê-la, ao lado do jeans e dos tênis, sempre meio surrados, e da camiseta com imagem de super-heróis, como uma das formas de não se render totalmente à imagem de cidadão certinho que a vida lhe imputava.

Foi para o computador e para o celular, ver se havia mensagens no whatsapp ou no inbox do Facebook. Abriu a janela para olhar rapidamente para a noite e o dia que amanhecia, e lá encontrou algo que, ainda que por alguns minutos, desviou sua atenção das redes sociais. A lua enorme, cheia, e o céu estrelado. Lembrou-se que, se passasse mais umas duas horas ali, veria o dia amanhecer, e o céu transformaria aquele breu em azul-marinho e dele, antes de chegar no alaranjado e, finalmente, no azul-turquesa, passaríamos pelo céu cor-de-rosa.

A imagem do céu cor-de-rosa permaneceu nos pensamentos de Arthur quando ele já estava no seu computador. Ficou olhando para a janela e esperando que ele aparecesse. Uns dois dias antes, uma música lhe chamara a atenção novamente. La vie en rose. Era uma música que escutava num antigo CD de Louis Armstrong de seu pai, na infância. Mas só agora ele parecia fazer sentido, em sua tradução que expressava desde o romantismo da composição de Edith Piaf, falando do amor em tempos de pós-guerra, até as versões de Armstrong, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Grace Jones, Cyndi Lauper, e a mais recente, nas vozes de Cristin Milioti ou Daniela Andrade.

Por que a música lhe significava algo, ele não sabia explicar. Ou sabia, mas, por enquanto, só para si mesmo. O certo é que o céu cor-de-rosa lhe lembrava a canção. O céu cor-de-rosa era fugaz, na velocidade pela qual saía de uma tonalidade para outra. Capturá-lo com os sentidos era um exercício de observação e sensibilidade. Como, talvez, o era capturar “a vida em rosa”. Num mundo cheio de problemas e pessoas que pouco ou nenhum tempo dedicavam às sensibilidades, em tempos difíceis para os sonhadores, temos poucas chances de pensar num mundo menos rápido, menos frenético, menos cinza. Num mundo em que as lutas cotidianas o dão tons de cores mais definidas, a vida em cor-de-rosa parece ser como aquele céu fugidio do começo das manhãs, aquele céu que apenas os sensíveis conseguem enxergar.

Arthur fechou o notebook. O dia amanhecia, e de repente lhe aparecia o céu cor-de-rosa. Na sua cabeça, tocava ainda mais claramente La vie en rose. Pensou em sua própria vida e desejou ser abraçado rápido. Refletiu que, com os olhos e ouvidos certos, era possível ver em todas as palavras do mundo uma certa canção de amor. E assim, o céu cor-de-rosa daquela madrugada pairaria eternamente em sua memória. Ele e a vida em cor-de-rosa que conseguia observar, apesar do resto do mundo.


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