Paralela a ele, a reflexão que desenvolvia com meu amigo me levou a pensar que jamais estamos preparados para a paternidade. Talvez o primeiro sentimento de ser pai venha a ser o de que carregamos um fardo, que, de tão pequeno e frágil, se torna o maior de nossas vidas. Desde pequeno, escuto de meu pai que, ao nascer, eu representava toda a responsabilidade que, a partir dali, passaria a incidir sobre a sua vida. Ao pensar nisso, surge um outro sentimento: o de pânico. E aí me deu medo de ser pai, e de encarar esse fardo, tão pequeno e frágil.
Não consigo compreender bem o porquê - talvez o recesso nostálgico - mas essa reflexão me acompanhou ao longo do dia inteiro, e chegou a pautar uma outra conversa que tive, com outro amigo, sobre o mesmo assunto. O bálsamo e o horror da paternidade. Os dois lado a lado. Lembrei, então, que a minha profissão havia me feito, tão jovem, pai de um monte de gente. Uma paternidade às avessas, torta, mas tão afetuosa, no desejo de cuidar, de proteger, na mistura de emoção e medo ao ver crescer e tomar os próprios rumos. Uma paternidade que eu abracei carinhosa e irrestritamente. Talvez meu maior exercício de paternidade, antes que chegue o dia em que tocarei uma criaturinha que tenha meu sangue e qualquer coisa das minhas feições, das impressões genéticas que lhe imprimiriam - só lá saberei - um jeito próprio de sorrir, de olhar, de falar, o formato do nariz e das orelhas. Mais do que isso, conseguiria lhe passar qualquer coisa sobre meu jeito de enxergar o mundo e a vida? Conseguiria lhe passar meu gosto pela leitura, pela música? Que talentos ele/ela desenvolveria? Iria se interessar em ler e assistir a saga Harry Potter, ou consideraria isso, assim como tantas outras coisas, "velharias de gente da minha idade"? Pareceria mais comigo ou com meus pais? Não pareceria tanto com nenhum de nós e sim com as feições de sua possível mãe?
Ao pensar nisso, algumas músicas tocaram na minha cabeça, e o romantismo do ser pai de repente voltava. Um dia, no futuro, não quando me sentir preparado emocionalmente (tive hoje a convicção de que esse dia jamais chegará), mas quando a vida disser que é a hora certa. Agora, o romantismo ganhou outra forma. O romantismo também tocou as vezes em que meu/minha ainda hipotético(a) filhote/filhota choraria pela primeira vez com cólica, quando me fizesse passar algumas noites acordado, quando fizesse birra e eu tivesse que colocá-lo(a) de castigo, quando tivesse de ensinar a ele ou ela que não se deve magoar as pessoas ou que ele/ela não tinha o direito de apontar o dedo e julgar quem quer que fosse, por que motivo fosse, ou quando visse ele/ela chorando por amor pela primeira vez, quando quisesse me contar qualquer segredo que mudasse de alguma forma a vida dele/dela, a minha e a de todo(a)s o(a)s envolvido(a)s.
Jamais estaria preparado. Mas adoraria e adorarei, tenho certeza, viver esses acontecimentos quando eles viessem. E aí, bisbilhotando as canções sobre paternidade, dei de cara com a canção de ninar que Thom Yorke compôs para seu filho Noah. Talvez ser pai seja mesmo navegar em estrelas cadentes, viver a ao mesmo tempo angustiante e maravilhosa incerteza sobre o futuro daquele corpo pequeno e frágil em nossos braços. Mas só no futuro saberei (espero) se Yorke estava certo.
Sail
To The Moon
I sucked the moon
I spoke too soon
And how much did it cost?
I was dropped from moonbeams
And sailed on shooting stars
Maybe you'll
Be president
But know right from wrong
Or in the flood
You'll build an Ark
And sail us to the moon
Sail us to the moon
Sail to the moon
Navegar
até a lua
Eu suguei a lua
Eu falei cedo demais
E quanto isto custou?
Eu caí dos raios lunares
E naveguei em estrelas cadentes
Talvez você
Será presidente
Mas saiba o que é certo e errado
Ou na enchente
Você construirá uma Arca
E navegaremos até a lua
Navegaremos até a lua
Navegar até a lua
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