O cinema, de uma maneira geral, e o cinema hollywoodiano, em
particular, tem uma figura de suma importância, mas nem sempre considerada: a
figura do coadjuvante. É impossível pensar, por exemplo, nas venturas e
desventuras amorosas de Rick Blaine, Ilsa Lund e Victor Lazlo, protagonistas de Casablanca, sem que o pianista Tom
dedilhasse As Time Goes By no piano
do Café do Rick; ou mesmo na relação difícil entre a Bela e a Fera, do filme
homônimo, sem os diálogos sensacionais de Lumière, Orloge e os demais criados,
magicamente transformados em objetos.
No entanto, para mim, ninguém encarna melhor a figura do
coadjuvante quanto Cosmo Brown. Personagem interpretado por Donald O’Connor no
não menos clássico Cantando na Chuva,
Cosmo consegue, ao mesmo tempo, brilhar sem roubar a cena. Em muitos momentos
do filme, a genialidade de O’Connor dá indícios de que chega a ser maior do que
a de Gene Kelly, o protagonista. Mas o ator consegue, sensivelmente,
compreender que sua função ali é ser escada para Kelly e seu Don Lockwood, que
vivencia a passagem do cinema mudo para o cinema falado, as crises de
estrelismo de sua namorada, Lina Lamont (Jean Hagen) e o florescer do talento
de Kethy Selden (Debbie Reynolds). Embora o fantástico número de Make ‘Em Laugh mostre o brilhantismo de
O’Connor, ele consegue não passar da linha tênue que o faz coadjuvante, o que
fica evidente, por exemplo, na cena em que ele e Kelly interpretam a clássica Moses Supposes.
Ser coadjuvante é uma arte, no cinema e na vida.
Principalmente porque, tal como Donald O’Connor e seu Cosmo Brown, coadjuvar
não é anular-se da ação, mas entender que o protagonismo do outro não pode, em
certos momentos, ser obscurecido. Há momentos na vida em que somos
protagonistas, em que somos Don Lockwood, e outros em que temos que ser Cosmo
Brown – estar ao lado do protagonista, fazê-lo viver sua grande cena, mas sem
deixar de brilhar. A amizade, por exemplo, é uma manifestação da vida em que,
muitas vezes, precisamos compreender nosso lugar de coadjuvantes – o de
aprender a ouvir, a ajudar o(a) amigo(a) a ser protagonista de sua própria
vida, mas, ao mesmo tempo, ter consciência de que temos um papel decisivo nas
ações.
Em outros filmes, tais como I Love Melvin, há belos momentos de protagonismo de O’Connor, onde
podemos ver a clássica cena em que sapateia em patins. Mas em Cantando na
Chuva, o brilhantismo de Cosmo é ser coadjuvante. No cinema, como na vida,
Cosmo Brown nos dá lições de genialidade – genialidade suficiente para praticar
como poucos a arte de coadjuvar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário