sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A arte de ser Cosmo Brown

O cinema, de uma maneira geral, e o cinema hollywoodiano, em particular, tem uma figura de suma importância, mas nem sempre considerada: a figura do coadjuvante. É impossível pensar, por exemplo, nas venturas e desventuras amorosas de Rick Blaine, Ilsa Lund e Victor Lazlo, protagonistas de Casablanca, sem que o pianista Tom dedilhasse As Time Goes By no piano do Café do Rick; ou mesmo na relação difícil entre a Bela e a Fera, do filme homônimo, sem os diálogos sensacionais de Lumière, Orloge e os demais criados, magicamente transformados em objetos.

No entanto, para mim, ninguém encarna melhor a figura do coadjuvante quanto Cosmo Brown. Personagem interpretado por Donald O’Connor no não menos clássico Cantando na Chuva, Cosmo consegue, ao mesmo tempo, brilhar sem roubar a cena. Em muitos momentos do filme, a genialidade de O’Connor dá indícios de que chega a ser maior do que a de Gene Kelly, o protagonista. Mas o ator consegue, sensivelmente, compreender que sua função ali é ser escada para Kelly e seu Don Lockwood, que vivencia a passagem do cinema mudo para o cinema falado, as crises de estrelismo de sua namorada, Lina Lamont (Jean Hagen) e o florescer do talento de Kethy Selden (Debbie Reynolds). Embora o fantástico número de Make ‘Em Laugh mostre o brilhantismo de O’Connor, ele consegue não passar da linha tênue que o faz coadjuvante, o que fica evidente, por exemplo, na cena em que ele e Kelly interpretam a clássica Moses Supposes.



Ser coadjuvante é uma arte, no cinema e na vida. Principalmente porque, tal como Donald O’Connor e seu Cosmo Brown, coadjuvar não é anular-se da ação, mas entender que o protagonismo do outro não pode, em certos momentos, ser obscurecido. Há momentos na vida em que somos protagonistas, em que somos Don Lockwood, e outros em que temos que ser Cosmo Brown – estar ao lado do protagonista, fazê-lo viver sua grande cena, mas sem deixar de brilhar. A amizade, por exemplo, é uma manifestação da vida em que, muitas vezes, precisamos compreender nosso lugar de coadjuvantes – o de aprender a ouvir, a ajudar o(a) amigo(a) a ser protagonista de sua própria vida, mas, ao mesmo tempo, ter consciência de que temos um papel decisivo nas ações.


Em outros filmes, tais como I Love Melvin, há belos momentos de protagonismo de O’Connor, onde podemos ver a clássica cena em que sapateia em patins. Mas em Cantando na Chuva, o brilhantismo de Cosmo é ser coadjuvante. No cinema, como na vida, Cosmo Brown nos dá lições de genialidade – genialidade suficiente para praticar como poucos a arte de coadjuvar.

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