terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Um menino à esquerda do peito

Uma homenagem a Antoine de Saint-Exupéry. Para ler ao som de Milton Nascimento e Lô Borges.

É, moleque. O tempo passou e você continua existindo. Justamente quando eu imaginava que um adulto chato e sisudo chegaria e se colocaria, vestindo terno e gravata, e ocuparia o seu lugar. Você é duro, moleque. Você tem conseguido resistir a tudo. Você resiste às chatices e bur(r)ocracias que só esses adultos fazendo adultices são capazes de inventar. Você resiste à necessidade insuportável de sempre ter que se posicionar. Você resiste à mazela, sobrevive à cobrança e parece, às vezes, ser imune às doenças do mundo. Claro, às vezes você também cai meio abatido, mas basta uma aspirina, um xarope, e você volta a correr solto pela rua sem carros, pela praça cheia de amigos, pelo campo sem os perigos do mundo.

Você não esqueceu de quem você era. Você continua abrindo um sorriso, dando uma gargalhada gostosa sempre que a bigorna cai sobre a cabeça do Coiote e o Papa-Léguas escapa. Você continua vendo a mesma graça nas piadas do Chaves. Você não esqueceu o sabor de Passatempo recheado, Nesquick de morango e bala de café, mesmo quando a vida cobra grelhados e salada. Você ainda se lambuza com cachorro-quente. Você ainda gosta de acordar cedinho sábado de manhã pra ver desenho, embrulhado no lençol, e ainda exclama quando o herói faz algo muito massa na tela do cinema. Você ainda tem esperança de que todos os males do mundo ainda sejam uma das brincadeiras de faz-de-conta que algum amigo sem graça propunha, às vezes. Você ainda espera que os desafetos sejam só coleguinhas que ficaram de mal e "mandaram partir", e que amanhã você os encontrará na praça e vai chamar pra brincar de novo, e tudo ficará bem.

Todo mundo falou que você mudaria. Que um dia você ia crescer e ficar igual aos outros. Que aquela fase passaria, como passou na maioria das pessoas, que ostentam sua cara amarrada e cinzenta por aí. E aí você até cresceu. Engrossou a voz, criou barba e pelo no peito. Você faz coisas de adulto, porque tem que fazer. Mas você acha que tem como tornar esse mundo adulto menos cinzento, e tenta fazer a sua parte. Você insiste em sentar com as pernas cruzadas, porque essa é a sua resistência silenciosa. Você não cansou de buscar no seu mundo, aquele mundinho tão seu, uma aquarela que servisse para pintar esse mundo em que você convive com essa montanha infinita de gente. Nem sempre é fácil, e quase todos os dias vem alguém te desencorajar. Mas você tenta, e às vezes parece que até consegue.

Foi você que me soprou no ouvido naquele dia em que eu estava indeciso sobre que rumo seguir. Aliás, sempre, nesses momentos, você me soprou o caminho. Com seu sorriso doce de menino sapeca, com seus cabelos bagunçados, com seus olhinhos rápidos, você sempre soube o que dizer.

Um dia, moleque, quando tudo parecia estar dando errado, e eu parecia estar prestes a viver como toda essa gente insiste em viver, você me estendeu a mão. Me falou desse monte de coisas bonitas que acredita que não deixarão de existir. Você gritou com sua voz esganiçada, bateu o pé e fez uma birra tão feia que eu olhei pra você com os olhos arregalados, perguntando o que estava acontecendo, e você me disse, com algumas lágrimas nos olhos, que não podia aceitar que eu esquecesse dele, que deixasse ele desaparecer. Você não se acalmou enquanto não me disse, com seu jeito tão simples e tão sábio de falar, que havia tanta coisa bonita no mundo que tinha como dar um jeito. Sempre teria.

Você, moleque, me salva cotidianamente de mim mesmo. Me lembra daquilo que às vezes a vida insiste em me fazer esquecer. Tem dias que você abre a janela lateral e me faz acreditar que eu era um cavaleiro marginal, que viveu mistérios, sem querer descanso nem dominical. É seu abraço que me lembra, dia após dia, que a escuridão e a dureza do mundo não podem me vencer. Não podem nos vencer.

E aí, moleque, eu peço para que hoje nós renovemos nosso trato. Você continua, firme e forte, do meu lado. Continua sendo esse menino sapeca, com asas nos pés, e que sabe andar de cabeça para baixo. Me impedindo de sucumbir. Me lembrando, todos os dias, de quem eu sou.

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