sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Andar de cabeça para baixo

"Quem anda de cabeça para baixo, senhoras e senhores, quem anda de cabeça para baixo tem o céu como abismo." (Paul Celan)

Um dia, um menino aparece caminhando tranquilamente, de cabeça para baixo, com os pés no teto de sua casa, desafiando a lógica e as leis da gravidade, simplesmente porque ninguém jamais o disse que aquilo era impossível. Essa é uma das imagens que povoa minha cabeça desde a infância, já naquela época, como uma metáfora da possibilidade de fazer aquilo que se julga fora de cogitação.

Na verdade, confesso que sempre fui seduzido pelo improvável e pelo impossível. Talvez isso explique minha paixão, sempre confessa, por séries de ficção, por filmes de fantasia, por livros sobre magia e aventuras. Não necessariamente o enfrentamento da realidade, mas suas linhas de fuga. Como Harry Potter, que viveu sua infância isolado no armário embaixo da escada de seus odiosos tios "trouxas", sonhei a vida inteira que haveria de chegar uma coruja (também metafórica) que me conduziria para o lado de fora, o lado oculto da lua, aquele lugar que poucos ocuparam, seja por não conhecerem, seja por acharem absurdo demais para habitarem.

Como historiador, sempre tive um fascínio pelo que há do outro lado da falésia. Essa outra metáfora - lançada pelo jesuíta francês Michel de Certeau, e apropriada pelo historiador da leitura Roger Chartier - representava justamente o inseguro, a incerteza que inquietava os historiadores após a revolução causada, na primeira metade do século XX, ao abrir o saber histórico a novos objetos, novos problemas e novas abordagens. Estar à beira da falésia seria estar correndo os riscos da fragmentação, da explosão em imprevisíveis significados, à beira de um possível colapso que causava e ainda causa medo.

Da minha parte, sempre me apaixonei pelas falésias. A falésia metafórica dos historiadores, que significa esse lado oculto, incerto e impreciso, que ampliava as possibilidades, de alguma forma, me lembrou essa outra metáfora do impossível. Estar para além da falésia, na história e na vida (haveria diferença?) seria se permitir, tal como nos indica o escritor Paul Celan, andar de cabeça para baixo. Seria se permitir o que muitos disseram ser impossível fazer, ampliar as possibilidades e desafiar os limites. Mais do que isso, seria viver, escrever como um "cavaleiro bárbaro", que, ao desafiar o mundo e a lógica, encontra-se alegremente com seus próprios sonhos.

Penso ser necessários que haja no mundo mais pessoas que se permitam andar de cabeça para baixo. Que se permitam descer as falésias - utilizando aparelhos de segurança ou saltando-as livremente. Que se permitam ser errantes pelas fronteiras, que busquem o além sem medo das tiranias do tempo. Principalmente, que se permitam afetar-se alegremente pelo desafio e pelo risco de errar - nos dois sentidos: o da errância e o do erro. Que saúdem alegremente o abismo, e o tratem como um velho amigo. Que desenvolvam a capacidade de viver plenamente seus encontros inéditos com o mundo, estampando no rosto um sorriso nos lábios.

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