terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Lugar certo, hora certa

Ele não tinha uma flor para oferecer. Não sabia se ainda se usavam flores. Talvez não. Ele gostava de falar, mas na frente dela ficava estranhamente mudo ou sem as palavras certas. Terminava, quase sempre, parecendo um menino sem jeito, com gestos estranhos e desconexos. Seu rosto, suas expressões, não conseguiam dizer muita coisa. Apenas, talvez, se alguém conseguisse penetrar profundamente nos seus olhos, e perceber que eles brilhavam de um jeito diferente. Ele se punia por não conseguir agir como os personagens dos filmes românticos que tanto gostava de assistir. Parece que os assuntos, as situações, nos filmes, apareciam, se colocavam, no lugar certo e na hora certo.

Todas as coisas que ele sabia, todo o conhecimento que pensava ter acumulado ao longo dos anos de sua vida, pareciam não significar nada quando se tratava daquele momento. Em momentos assim, ele chegava a pensar no quão arrogante podia ter sido ao achar que sabia tanto. Talvez ele até soubesse escrever sobre o que sentia, mas olhos nos olhos, tudo era tão mais difícil...

Depois, ele sempre conseguia imaginar uma forma de ter dito algo, de ter falado a coisa certa no lugar certo. Mas só depois, e aí, do que adiantava? Ele suspirava fundo, e quando achava que talvez fosse melhor esquecer, ele ouvia uma música que saía do seu notebook, que despertava novamente sua esperança.

No fundo, ele era um bobo romântico. E sempre seria, não conseguia ser ou agir de um jeito diferente, embora na vida tivesse tentado algumas vezes, sempre em vão. Ele confessava seus sentimentos de um jeito tão arriscado que às vezes parecia não ter medo de andar sobre a corda bamba. Não por coragem, mas pelo medo profundo de ser sufocado pelas palavras que não disse.

Como um aspirante a herói, ele às vezes achava que metia os pés pelas mãos, quando achava que salvava alguém que nem mesmo estava em perigo. Como um certo arquiteto da ficção, cuja história ele havia chegado a desconfiar ter sido baseada na sua vida, ele temia que seu jeito crônico de lidar com os sentimentos o levasse sempre ao fracasso. Como Dom Quixote, um dos personagens da literatura universal pelo qual tinha um apego inexplicável, ele continuava nutrindo um amor irremediável e lutando pelas causas aparentemente perdidas.

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