Já parei para imaginar a vida como um grande poema de Mário Quintana. Um poema que, ao mesmo tempo, falasse de meninices e de coisas sérias, que filosofasse sobre o mundo como quem sobe numa árvore.
A vida, quando quintana-se, torna-se como aquela rua dos cataventos, escura e sombria, sobrevoada por aves de rapina, aves da noite, que esperam a morte chegar para tomar os corpos.
A vida, quando quintana-se, pode também tornar-se um abrir da janela, um respiro para quem vive dentro de uma cela abafada.
A vida, quando quintana-se, pode ser como aqueles cucos, aqueles antigos relógios de parede, que devora as gerações de famílias com seu implacável e tirânico tempo.
A vida, quando quintana-se, pode ser como os pássaros que, como os poemas, chegam e pousam, mas também podem bater as asas e voarem para lugares inusitados e intempestivos.
A vida, quando quintana-se, pode ser como aquela ruazinha que dorme, com o vento, enovelado como um cão, na calçada, que escuta meus passos pela madrugada.
A vida, quando quintana-se, pode olhar o mundo lá do décimo-segundo andar do ano, ao lado de uma louca chamada Esperança, que, de lá, lança-se no abismo e cai lá embaixo, outra vez criança.
A vida, quando quintana-se, pode ser como alguém que olha as pedras que atravancam-lhe o caminho. Se essas pedras interrompem, se nos impedem, precisamos saber que elas passarão. Nós, todos nós, passarinho.
Lembrei-me do tempo de menino, brincando em ruas pacatas da cidadezinha pequena, sem contrastes. Quando chovia, parecia que que tornava-se cada vez mais uma cidadela. Ah tempos que não voltam!
ResponderExcluir