quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

De janeiro a janeiro, por mais mil anos

Escrevo durante a virada de ano, com fones nos ouvidos. Não que eu não goste de reuniões, mas, particularmente, escolhi um ano novo de pijamas. E apenas alguns minutos estão prestes a me conduzir a 2016. Provavelmente, você já lerá esse texto em um novo ano. Esse momento me apresentou a dor e o fascínio que movem o tempo. Um segundo e nos transportamos para um novo tempo, repleto de novas esperanças. Psicologicamente, nos sentimentos renovados.

Seria esse eterno retorno aquilo que essencialmente nos marca, nos move? Prefiro não pensar em essências. Mas, enquanto escrevo esse texto, duas músicas passaram pela minha playlist: De Janeiro a Janeiro, na voz de Nando Reis e Roberta Campos, e A Thousand Years, cantada por Christina Perri. Coincidentemente (existem mesmo coincidências?), duas músicas que têm o tempo como seu pretexto. Seria possível que o amor, outro grande pretexto de ambas as músicas, durasse "de janeiro a janeiro, até o mundo acabar"? Seria possível amar "por mil anos e por mais mil"?




Talvez a solidão do meu quarto, nas proximidades da meia-noite de ano novo, esteja mexendo comigo. Provavelmente está. E as músicas me afetam de um jeito particular. Porque vivo uma relação nem sempre conciliada com o tempo. O tempo, por vezes tão turbulento, o tempo de espera, por vezes tão longo. O tempo que nos quer reconciliar com os lados de dentro e de fora de nós mesmos. Estranho um aprendiz de historiador que tem uma relação tão difícil com o tempo... Ou seria estranho se eu tivesse uma relação mais pacífica?


Provavelmente esse texto só fará sentido para mim mesmo. Reflete uma transição de ano que é muito minha. Reflete a maneira como duas músicas me afetam de um jeito que é só meu. Reflete uma relação não-reconciliada com o tempo que é apenas minha. Reflete, mais do que nunca, que ainda não perdi a esperança de que esse tempo de espera me mostre que faz sentido, que é importante esperar.

2016, mais do que qualquer um, é um ano que começa com minha valorização do tempo de espera. Do tempo que busca uma reconciliação. O tempo de um jovem que enxerga, ao mesmo tempo, alguns, ainda que poucos, fios branco no cabelo, e que sente que guarda dentro de si uma criança interior. O tempo de quem precisou viver de janeiro a janeiro para perceber um outro nascente. De quem olhou bem dentro dos próprios olhos, e arriscou um sorriso de quem torce para que o universo conspire a favor.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Desenredo

Existe um lugar perdido dentro de nós que é despertado de vez em quando. E aí vemos que sobre ele não sabemos escrever de maneira tão eloquente. Parece uma saudade estranha de tudo que ainda não vimos ou vivemos. Hoje, fui tomado por essa saudade repentina. Um poema escrito à mão, uma lembrança, um sentimento genuíno que tenho alimentado, uma música. Tudo isso, aparentemente diferente e dispersivo, tudo junto. Hoje, pouco vou saber escrever sobre qualquer coisa. Talvez amanhã a inspiração de final de ano fale por mim. Mas hoje, sou apenas fragmentos. Sou apenas uma canção que toca distante, e parece desenredar a vida.


Desenredo

Por toda terra que passo
Me espanta tudo o que vejo
A morte tece seu fioDe vida feita ao avesso.
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso
Mas quando eu chego
Eu me enredo
Nas tramas do teu desejo.

O mundo todo marcado
A ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo
A morte é o fim do novelo.

O olhar que assusta
Anda morto
O olhar que avisa
Anda aceso.

Mas quando eu chego
Eu me perco 
Nas tramas do teu segredo.

Ê, Minas
Ê, Minas
É hora de partir
Eu vou
Vou-me embora pra bem longe.

A cera da vela queimando
O homem fazendo o seu preço
A morte que a vida anda armando
A vida que a morte anda tendo.

O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte, indefeso
Mas quando eu chego
Eu me enrosco
Nas cordas do teu cabelo.

Ê, Minas
Ê, Minas
É hora de partir 
Eu vou
Vou-me embora pra bem longe.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Um menino à esquerda do peito

Uma homenagem a Antoine de Saint-Exupéry. Para ler ao som de Milton Nascimento e Lô Borges.

É, moleque. O tempo passou e você continua existindo. Justamente quando eu imaginava que um adulto chato e sisudo chegaria e se colocaria, vestindo terno e gravata, e ocuparia o seu lugar. Você é duro, moleque. Você tem conseguido resistir a tudo. Você resiste às chatices e bur(r)ocracias que só esses adultos fazendo adultices são capazes de inventar. Você resiste à necessidade insuportável de sempre ter que se posicionar. Você resiste à mazela, sobrevive à cobrança e parece, às vezes, ser imune às doenças do mundo. Claro, às vezes você também cai meio abatido, mas basta uma aspirina, um xarope, e você volta a correr solto pela rua sem carros, pela praça cheia de amigos, pelo campo sem os perigos do mundo.

Você não esqueceu de quem você era. Você continua abrindo um sorriso, dando uma gargalhada gostosa sempre que a bigorna cai sobre a cabeça do Coiote e o Papa-Léguas escapa. Você continua vendo a mesma graça nas piadas do Chaves. Você não esqueceu o sabor de Passatempo recheado, Nesquick de morango e bala de café, mesmo quando a vida cobra grelhados e salada. Você ainda se lambuza com cachorro-quente. Você ainda gosta de acordar cedinho sábado de manhã pra ver desenho, embrulhado no lençol, e ainda exclama quando o herói faz algo muito massa na tela do cinema. Você ainda tem esperança de que todos os males do mundo ainda sejam uma das brincadeiras de faz-de-conta que algum amigo sem graça propunha, às vezes. Você ainda espera que os desafetos sejam só coleguinhas que ficaram de mal e "mandaram partir", e que amanhã você os encontrará na praça e vai chamar pra brincar de novo, e tudo ficará bem.

Todo mundo falou que você mudaria. Que um dia você ia crescer e ficar igual aos outros. Que aquela fase passaria, como passou na maioria das pessoas, que ostentam sua cara amarrada e cinzenta por aí. E aí você até cresceu. Engrossou a voz, criou barba e pelo no peito. Você faz coisas de adulto, porque tem que fazer. Mas você acha que tem como tornar esse mundo adulto menos cinzento, e tenta fazer a sua parte. Você insiste em sentar com as pernas cruzadas, porque essa é a sua resistência silenciosa. Você não cansou de buscar no seu mundo, aquele mundinho tão seu, uma aquarela que servisse para pintar esse mundo em que você convive com essa montanha infinita de gente. Nem sempre é fácil, e quase todos os dias vem alguém te desencorajar. Mas você tenta, e às vezes parece que até consegue.

Foi você que me soprou no ouvido naquele dia em que eu estava indeciso sobre que rumo seguir. Aliás, sempre, nesses momentos, você me soprou o caminho. Com seu sorriso doce de menino sapeca, com seus cabelos bagunçados, com seus olhinhos rápidos, você sempre soube o que dizer.

Um dia, moleque, quando tudo parecia estar dando errado, e eu parecia estar prestes a viver como toda essa gente insiste em viver, você me estendeu a mão. Me falou desse monte de coisas bonitas que acredita que não deixarão de existir. Você gritou com sua voz esganiçada, bateu o pé e fez uma birra tão feia que eu olhei pra você com os olhos arregalados, perguntando o que estava acontecendo, e você me disse, com algumas lágrimas nos olhos, que não podia aceitar que eu esquecesse dele, que deixasse ele desaparecer. Você não se acalmou enquanto não me disse, com seu jeito tão simples e tão sábio de falar, que havia tanta coisa bonita no mundo que tinha como dar um jeito. Sempre teria.

Você, moleque, me salva cotidianamente de mim mesmo. Me lembra daquilo que às vezes a vida insiste em me fazer esquecer. Tem dias que você abre a janela lateral e me faz acreditar que eu era um cavaleiro marginal, que viveu mistérios, sem querer descanso nem dominical. É seu abraço que me lembra, dia após dia, que a escuridão e a dureza do mundo não podem me vencer. Não podem nos vencer.

E aí, moleque, eu peço para que hoje nós renovemos nosso trato. Você continua, firme e forte, do meu lado. Continua sendo esse menino sapeca, com asas nos pés, e que sabe andar de cabeça para baixo. Me impedindo de sucumbir. Me lembrando, todos os dias, de quem eu sou.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Ídolos de papel: 10 personagens da ficção que me inspiraram

Sou daquelas pessoas que se enxerga naquilo que assiste, lê ou escuta. Não é incomum que certos personagens da ficção me causem uma impressão de que capturaram qualquer coisa de mim - ou, mais precisamente, daquilo que um dia eu desejo ser. Provavelmente, a relação se dê pelo contrário: eu, ao longo da vida, me apropriei de pedaços de muitos personagens que acompanhei, na vida de leitor, telespectador ou cinéfilo. Ao longo da constituição de minhas próprias identidades, terminei, ao longo da vida, trazendo, por osmose, pedaços de uma série de ídolos da ficção, heróis do cotidiano, que ajudaram a me conformar minha subjetividade. Hoje, resolvi fazer uma lista de uma série de personagens que me inspiraram ao longo da vida, e no que me identifiquei com cada um deles.

1. Ted Mosby


"Talvez não existam sinais. Talvez um colar é apenas um colar, e um puff é apenas um puff, talvez a gente não precise dar sentido a tudo. Talvez a gente não precisa que o universo nos diga o que queremos, talvez já saibamos, bem lá no fundo." Espécie de estereótipo inverso do macho alfa, Ted Mosby, protagonista da série How I Met Your Mother, é um homem que, diferente de um de seus melhores amigos, Barney, não procura um relacionamento casual, e sim a mulher da sua vida, a mãe dos seus filhos. Reiteradas vezes, ao longo da série, o romantismo incurável de Ted o faz apaixonar-se perdidamente por diversas mulheres, imaginando ser aquela a mulher com quem viveria até o fim de seus dias. Por seu perfil, de não conseguir adaptar-se à lógica do mundo selvagem da conquista, Ted termina por cometer os erros mais grosseiros nos relacionamentos, sendo o pior deles declarar amor no primeiro encontro. Justamente por escapar aos modelos, Ted é um personagem que me é inspirador: é um dos últimos românticos, capaz de colocar em risco os próprios sentimentos em nome de uma atitude inspirada pelo coração.

2. Will Schuester


Assim como muitos personagens dessa lista, Will Schuester, professor de Espanhol - e, posteriormente, de História - do colégio William McKinley, é um daqueles que me inspiraram na vida como educador. Um dos personagens principais da série musical Glee, Will mobiliza-se, muitas vezes na contramão da escola e até mesmo da vida conjugal, para realizar o sonho dos jovens que reúne no clube do coral da escola, autonomeado Novas Direções. Encantador em seu carinho e proximidade dos alunos, o Sr. Schue é um daqueles professores da ficção que me inspiraram no cotidiano docente na vida real: não basta ensinar, é preciso fazer da sala de aula um lugar de construção de afetos.

3. Remo Lupin


Assim como Schuester, Lupin é um dos muitos professores dessa lista. Em 2002, ao ler pela primeira vez Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, me deparei com, até aquele momento - e ao longo de todo o resto da série - o melhor de todos os professores de Defesa Contra as Artes das Trevas que Harry já havia tido. Não apenas pela competência como docente, mas pela sensibilidade em lidar com as diferentes situações, e por se tornar em um dos protetores de Harry. De cabelos cor de palha, roupas surradas e uma expressão cansada, apesar da juventude, tal como descreve J. K. Rowling, Lupin guarda consigo um grande segredo, que não o impede de manter a doçura e a capacidade de inspirar os alunos de Hogwarts.


4. Michael D'Angelo


"Quanto tempo nós temos? Não muito." Escola da Vida é um dos filmes que assisti justamente quando iniciava minha vida como professor. O ano era 2009, eu tinha 19 anos e iria entrar pela primeira vez em uma sala de aula. Conhecer Michael D'Angelo, o jovem professor de História que, rapidamente, é tomado pelos alunos e alunas como o querido Sr. D, me reafirmou o professor que eu desejava ser. Também possuidor de um segredo sobre sua própria vida, o Sr. D também me ensinou que é preciso bem mais do que conhecimento para transformar a sala de aula num lugar onde aprendizado e afeto caminhassem juntos.

5. Doug Funny


Doug, de todos dessa lista, foi o primeiro personagem que conheci, e, certamente, um dos primeiros com quem me identifiquei. Diferente da maioria dos garotos de sua idade, o protagonista da animação Doug era um menino introspectivo, que dividia suas angústias de pré-adolescente com o melhor amigo, Skeeter, o cachorro, Costelinha, e, principalmente, com seu diário, que era o ponto de partida de cada episódio da série. Tais angústias tinham, quase sempre, a amada Patty Maionese, amor platônico de Doug, como centro. Provavelmente, minha identificação com Doug surgiu pela recorrência de amores platônicos, aliada à timidez, típica do personagem, marca central de minha infância e adolescência.

6. Eduardo Feitosa


De todos os professores descritos nesse post, Eduardo Feitosa, o Edu, personagem central da novela Coração de Estudante, foi o primeiro a me inspirar. A primeira aula de Edu na fictícia Universidade Estadual de Nova Aliança, no interior de Minas Gerais, me encantou com a possibilidade de encarar uma sala de aula. Além disso, Edu representou para mim um exemplo de paternidade, ao criar sozinho o filho Lipe, com quem mantinha uma relação de enorme afeto ao longo de toda a novela.

7. Bento de Jesus


O segundo personagem da teledramaturgia brasileira presente nessa lista tratou-se de uma identificação recente. Acompanhei de perto os preparativos para a estreia da novela Sangue Bom, e, desde o início, vi no protagonista Bento uma inspiração. Honesto, íntegro, leal consigo mesmo e com os outros, o personagem era capaz de acolher as pessoas mais diferentes, em seus defeitos e imperfeições, o que o reaproxima de Amora, amiga e amor do passado. Ao longo de toda a novela, tive a oportunidade de ver Bento e pensar nele como o cara que eu gostaria de ser quando crescesse, na medida em que mantinha inabalável sua fé nas pessoas.

8. John Keating


O protagonista do filme Sociedade dos Poetas Mortos é uma das minhas inspirações, que conheci assim que entrei na universidade. Professor de Literatura de um tradicional internato para garotos, John Keating ensinava aos seus alunos que, para além das regras da poesia, haviam os sentimentos, tão mais importantes. Toda a história do filme gira em torno das lições de vida de Keating a seus alunos, ao incentivo que daria para que cada um deles vivesse plenamente seus sonhos. Suas aulas, marcadas pela expressão "Oh, capitain, my capitan", do escritor norte-americano Walt Whitman, transcendiam o espaço da sala de aula, na medida em que se transformavam em ensinamentos para a vida.

9. Quasímodo


Nascido com feições deformadas, mas dono de uma imensa sensibilidade, o romântico Quasímodo, personagem-título da animação O Corcunda de Notre-Dame, baseada no livro homônimo de Victor Hugo, me inspirou justamente pelo romantismo platônico alimentado pela cigana Esmeralda. Na história, a visão muito particular de Quasímodo sobre o mundo o fazia tanto conversar com as gárgulas, suas companheiras de confinamento no campanário da famosa catedral parisiense, quanto construir uma maquete em madeira da praça central e das proximidades.

10. Nino Quincampoix


O último, mas não menos importante, personagem da ficção que me inspiraria para a vida seria Nino Quincampoix. Funcionário tanto de um trem do terror em um parque de diversões quanto de uma mistura de sex shop com loja de filmes pornôs, Nino é o oposto daquele espaço, e, tal como descreve uma de suas colegas de trabalho, é um desterritorializado em "tempos difíceis para os sonhadores". Ao longo da história do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, Nino se transforma na alma gêmea da personagem-título, vivendo aquela que, na minha opinião, é uma das mais belas cenas românticas já feitas.

domingo, 27 de dezembro de 2015

La Vie en Rose

Arthur acordou no meio da madrugada e olhou para o visor do celular ao seu lado. Três da manhã. Ele ainda tinha um resto de noite inteira, e uma manhã sem muitos compromissos para dormir nesse período de férias (férias?) que vivia. Deitou novamente e tentou dizer para si mesmo que era possível voltar a dormir, mas os pensamentos venceram. Ele levantou-se de sua cama, foi ao banheiro e olhou-se no espelho. A visão era embaçada pela falta dos óculos, mas dava para ver o cabelo, desgrenhado pelo travesseiro, e a barba por fazer. Aqueles resquícios de barba eram um de seus amuletos. Ele gostava de mantê-la, ao lado do jeans e dos tênis, sempre meio surrados, e da camiseta com imagem de super-heróis, como uma das formas de não se render totalmente à imagem de cidadão certinho que a vida lhe imputava.

Foi para o computador e para o celular, ver se havia mensagens no whatsapp ou no inbox do Facebook. Abriu a janela para olhar rapidamente para a noite e o dia que amanhecia, e lá encontrou algo que, ainda que por alguns minutos, desviou sua atenção das redes sociais. A lua enorme, cheia, e o céu estrelado. Lembrou-se que, se passasse mais umas duas horas ali, veria o dia amanhecer, e o céu transformaria aquele breu em azul-marinho e dele, antes de chegar no alaranjado e, finalmente, no azul-turquesa, passaríamos pelo céu cor-de-rosa.

A imagem do céu cor-de-rosa permaneceu nos pensamentos de Arthur quando ele já estava no seu computador. Ficou olhando para a janela e esperando que ele aparecesse. Uns dois dias antes, uma música lhe chamara a atenção novamente. La vie en rose. Era uma música que escutava num antigo CD de Louis Armstrong de seu pai, na infância. Mas só agora ele parecia fazer sentido, em sua tradução que expressava desde o romantismo da composição de Edith Piaf, falando do amor em tempos de pós-guerra, até as versões de Armstrong, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Grace Jones, Cyndi Lauper, e a mais recente, nas vozes de Cristin Milioti ou Daniela Andrade.

Por que a música lhe significava algo, ele não sabia explicar. Ou sabia, mas, por enquanto, só para si mesmo. O certo é que o céu cor-de-rosa lhe lembrava a canção. O céu cor-de-rosa era fugaz, na velocidade pela qual saía de uma tonalidade para outra. Capturá-lo com os sentidos era um exercício de observação e sensibilidade. Como, talvez, o era capturar “a vida em rosa”. Num mundo cheio de problemas e pessoas que pouco ou nenhum tempo dedicavam às sensibilidades, em tempos difíceis para os sonhadores, temos poucas chances de pensar num mundo menos rápido, menos frenético, menos cinza. Num mundo em que as lutas cotidianas o dão tons de cores mais definidas, a vida em cor-de-rosa parece ser como aquele céu fugidio do começo das manhãs, aquele céu que apenas os sensíveis conseguem enxergar.

Arthur fechou o notebook. O dia amanhecia, e de repente lhe aparecia o céu cor-de-rosa. Na sua cabeça, tocava ainda mais claramente La vie en rose. Pensou em sua própria vida e desejou ser abraçado rápido. Refletiu que, com os olhos e ouvidos certos, era possível ver em todas as palavras do mundo uma certa canção de amor. E assim, o céu cor-de-rosa daquela madrugada pairaria eternamente em sua memória. Ele e a vida em cor-de-rosa que conseguia observar, apesar do resto do mundo.


sábado, 26 de dezembro de 2015

Sail to the Moon

No meio da madrugada, ao conversar com um amigo, de repente me pego falando sobre filhos. De repente, me vi mentalmente planejando o(a)(s) filho(a)(s) que teria, como seria(m), o que eu faria quando existisse(m). Me imaginei, por um segundo, lendo O Pequeno Príncipe há noite, um capítulo antes de dormir, levando para passear na rua, mostrando esses fragmentos perdidos de um mundo que ele conheceria mais a fundo no futuro. Sei que há nessa descrição uma dose extra de romantismo sobre a paternidade. Há também, claro, as contas para pagar, as mensalidades escolares cada vez mais caras, os riscos de um mundo doente, a preocupação quando ele/ela(s) criasse(m) asas e começasse(m) a andar sem meus cuidados. Sei de tudo isso. Mas, naquele momento, me ocorreu apenas o romantismo de ser pai.

Paralela a ele, a reflexão que desenvolvia com meu amigo me levou a pensar que jamais estamos preparados para a paternidade. Talvez o primeiro sentimento de ser pai venha a ser o de que carregamos um fardo, que, de tão pequeno e frágil, se torna o maior de nossas vidas. Desde pequeno, escuto de meu pai que, ao nascer, eu representava toda a responsabilidade que, a partir dali, passaria a incidir sobre a sua vida. Ao pensar nisso, surge um outro sentimento: o de pânico. E aí me deu medo de ser pai, e de encarar esse fardo, tão pequeno e frágil.

Não consigo compreender bem o porquê - talvez o recesso nostálgico - mas essa reflexão me acompanhou ao longo do dia inteiro, e chegou a pautar uma outra conversa que tive, com outro amigo, sobre o mesmo assunto. O bálsamo e o horror da paternidade. Os dois lado a lado. Lembrei, então, que a minha profissão havia me feito, tão jovem, pai de um monte de gente. Uma paternidade às avessas, torta, mas tão afetuosa, no desejo de cuidar, de proteger, na mistura de emoção e medo ao ver crescer e tomar os próprios rumos. Uma paternidade que eu abracei carinhosa e irrestritamente. Talvez meu maior exercício de paternidade, antes que chegue o dia em que tocarei uma criaturinha que tenha meu sangue e qualquer coisa das minhas feições, das impressões genéticas que lhe imprimiriam - só lá saberei - um jeito próprio de sorrir, de olhar, de falar, o formato do nariz e das orelhas. Mais do que isso, conseguiria lhe passar qualquer coisa sobre meu jeito de enxergar o mundo e a vida? Conseguiria lhe passar meu gosto pela leitura, pela música? Que talentos ele/ela desenvolveria? Iria se interessar em ler e assistir a saga Harry Potter, ou consideraria isso, assim como tantas outras coisas, "velharias de gente da minha idade"? Pareceria mais comigo ou com meus pais? Não pareceria tanto com nenhum de nós e sim com as feições de sua possível mãe?

Ao pensar nisso, algumas músicas tocaram na minha cabeça, e o romantismo do ser pai de repente voltava. Um dia, no futuro, não quando me sentir preparado emocionalmente (tive hoje a convicção de que esse dia jamais chegará), mas quando a vida disser que é a hora certa. Agora, o romantismo ganhou outra forma. O romantismo também tocou as vezes em que meu/minha ainda hipotético(a) filhote/filhota choraria pela primeira vez com cólica, quando me fizesse passar algumas noites acordado, quando fizesse birra e eu tivesse que colocá-lo(a) de castigo, quando tivesse de ensinar a ele ou ela que não se deve magoar as pessoas ou que ele/ela não tinha o direito de apontar o dedo e julgar quem quer que fosse, por que motivo fosse, ou quando visse ele/ela chorando por amor pela primeira vez, quando quisesse me contar qualquer segredo que mudasse de alguma forma a vida dele/dela, a minha e a de todo(a)s o(a)s envolvido(a)s.

Jamais estaria preparado. Mas adoraria e adorarei, tenho certeza, viver esses acontecimentos quando eles viessem. E aí, bisbilhotando as canções sobre paternidade, dei de cara com a canção de ninar que Thom Yorke compôs para seu filho Noah. Talvez ser pai seja mesmo navegar em estrelas cadentes, viver a ao mesmo tempo angustiante e maravilhosa incerteza sobre o futuro daquele corpo pequeno e frágil em nossos braços. Mas só no futuro saberei (espero) se Yorke estava certo.


Sail To The Moon 

I sucked the moon
I spoke too soon
And how much did it cost?
I was dropped from moonbeams
And sailed on shooting stars

Maybe you'll
Be president
But know right from wrong
Or in the flood
You'll build an Ark
And sail us to the moon
Sail us to the moon
Sail to the moon

Navegar até a lua 

Eu suguei a lua
Eu falei cedo demais
E quanto isto custou?
Eu caí dos raios lunares
E naveguei em estrelas cadentes


Talvez você
Será presidente
Mas saiba o que é certo e errado
Ou na enchente
Você construirá uma Arca
E navegaremos até a lua
Navegaremos até a lua
Navegar até a lua

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A arte de ser Cosmo Brown

O cinema, de uma maneira geral, e o cinema hollywoodiano, em particular, tem uma figura de suma importância, mas nem sempre considerada: a figura do coadjuvante. É impossível pensar, por exemplo, nas venturas e desventuras amorosas de Rick Blaine, Ilsa Lund e Victor Lazlo, protagonistas de Casablanca, sem que o pianista Tom dedilhasse As Time Goes By no piano do Café do Rick; ou mesmo na relação difícil entre a Bela e a Fera, do filme homônimo, sem os diálogos sensacionais de Lumière, Orloge e os demais criados, magicamente transformados em objetos.

No entanto, para mim, ninguém encarna melhor a figura do coadjuvante quanto Cosmo Brown. Personagem interpretado por Donald O’Connor no não menos clássico Cantando na Chuva, Cosmo consegue, ao mesmo tempo, brilhar sem roubar a cena. Em muitos momentos do filme, a genialidade de O’Connor dá indícios de que chega a ser maior do que a de Gene Kelly, o protagonista. Mas o ator consegue, sensivelmente, compreender que sua função ali é ser escada para Kelly e seu Don Lockwood, que vivencia a passagem do cinema mudo para o cinema falado, as crises de estrelismo de sua namorada, Lina Lamont (Jean Hagen) e o florescer do talento de Kethy Selden (Debbie Reynolds). Embora o fantástico número de Make ‘Em Laugh mostre o brilhantismo de O’Connor, ele consegue não passar da linha tênue que o faz coadjuvante, o que fica evidente, por exemplo, na cena em que ele e Kelly interpretam a clássica Moses Supposes.



Ser coadjuvante é uma arte, no cinema e na vida. Principalmente porque, tal como Donald O’Connor e seu Cosmo Brown, coadjuvar não é anular-se da ação, mas entender que o protagonismo do outro não pode, em certos momentos, ser obscurecido. Há momentos na vida em que somos protagonistas, em que somos Don Lockwood, e outros em que temos que ser Cosmo Brown – estar ao lado do protagonista, fazê-lo viver sua grande cena, mas sem deixar de brilhar. A amizade, por exemplo, é uma manifestação da vida em que, muitas vezes, precisamos compreender nosso lugar de coadjuvantes – o de aprender a ouvir, a ajudar o(a) amigo(a) a ser protagonista de sua própria vida, mas, ao mesmo tempo, ter consciência de que temos um papel decisivo nas ações.


Em outros filmes, tais como I Love Melvin, há belos momentos de protagonismo de O’Connor, onde podemos ver a clássica cena em que sapateia em patins. Mas em Cantando na Chuva, o brilhantismo de Cosmo é ser coadjuvante. No cinema, como na vida, Cosmo Brown nos dá lições de genialidade – genialidade suficiente para praticar como poucos a arte de coadjuvar.

Kids...


Um dia, sentados no banco de uma estação de trem qualquer, levantamos os olhos e vemos um grande e familiar guarda-chuva amarelo, cuja dona tem seu rosto, ainda, escondido por trás da estrutura do objeto e pelo tempo, embaçado pela chuva torrencial que cai. Uma velhinha, sentada do nosso lado, nos cutuca e nos incita a conhecer sua dona, e, a partir dali, nossas vidas podem mudar completamente.


Essa cena, emblemática para muitos daqueles que passarão a ler esse blog, é o ponto de partida para sua criação. O guarda-chuva amarelo, essa metáfora do novo, do desconhecido, do maravilhoso que podemos descobrir cotidianamente, me pareceu a melhor forma de expressar meu desejo ao retornar a esse universo: o de fazer dele meu lugar de memória, meu relicário, um fiel depositário das descobertas diárias, das músicas escutadas, dos filmes e das séries assistidas, das opiniões sobre o mundo, a vida e as artes em geral.

Sem uma regularidade muito clara, o Guarda-Chuva Amarelo será um espaço não só do meu, mas de muitos outros corpos ciborgues que fazem parte da minha vida - e de todxs aquelxs que enxerguem nesse espaço um lugar em que se sintam à vontade. As postagens serão dedicadas a falar de mim, de nós, do mundo que nos cerca. Serão dedicados a todxs xs que desejarem, paradxs nessa estação de trem que é a vida, um lugar para esconder-se da chuva, e receber em troca um sorriso e uma conversa que, de alguma forma, afete seu dia-a-dia.