O filme abre numa cena numa viela, provavelmente de uma grande cidade. Prédios altos e antigos fazem sombra ao entardecer que torna lilás o céu daquele lugar, um pedaço de Veneza em qualquer lugar. Ao fundo, acordes de violão e um cantor de rua entoa uma balada romântica, como que anunciando o que viria em seguida. Não é um filme surpreendente. Seu roteiro poderia estar escrito no guardanapo de um bar à beira dos canais espalhados por aquela cidade bucólica. O rapaz, com a barba insistindo em despontar em seu rosto, olha pros lados, talvez à procura de uma Julieta em um dos balcões que imagina nas janelas daqueles prédios. Não... ali é Veneza, não Verona.
Ele não tem rumo. Sua camiseta branca, por baixo da camisa xadrez, seu jeans surrado e seus tênis cinzas não depõem tanto a seu favor. É um sujeito qualquer, andando sem rumo por uma cidade onde todos parecem estar fazendo o que sempre desejaram, ao lado das pessoas que amam. Ele vive uma solidão na qual insistiu durante um bom tempo, e hoje, quando não mais a deseja, parece ter dificuldade de largar, seja pelas circunstâncias, seja por sua própria culpa.
Ele não é nenhum Romeu. Consciente de que não tomaria veneno por ninguém que conhecera até ali, sente-se um pierrot triste em meio ao carnaval, ao dia e noite dos mascaradas que circulam, silenciosos em sua felicidade estrondosa, por entre ele. E ele, tão invisível, olha pro horizonte e vê o mar. O mar que se abre à sua frente - ele, que está entre os prédios antigos que lhe fazem sombra, entre as sacadas sem balcões nem Julietas - é o mar que se espalha por entre os canais da cidade, por onde circulam os barcos dos namorados, e onde, ao longe, navega um embarcadiço solitário. Teria ele uma amada em algum lugar, o esperando, ou seria como ele, à procura de alguém naquela terceira margem do mundo?
No passado, ele desejara viver plenamente seus sonhos individuais. Declarara não abrir mão de seus planos por quem quer que fosse. Num passado menos distante, esteve disposto a abrir mão de tudo em nome de alguém. No presente, ele deseja apenas que uma Julieta na sacada lhe apareça e lhe lance um sorriso. Ele deseja apenas acordar ao lado de um sorriso sincero, de um abraço na madrugada que o acolha quando sente frio ou medo.
Aquele sorriso inalcançável de uma Julieta que ele talvez nem conheça (ou conhece?), que aparece refletido no mar, parece estar no céu que muda do lilás para um escuro, parece ser o formato novo da lua, que continua sendo dos namorados, apesar dos astronautas e dos dragões. Ele caminha e pisa numa pequena poça d'água que lhe molha o tênis, escurecendo o cinza do couro. Choveu mais cedo e a cidade, alagada pelos canais que trazem a água do mar, o barcos e embarcadiços, tem pequenos montes de água espalhados, refletindo aquela mesma lua/sorriso de Julieta que ele via. Ele olha novamente para as janelas, à espera do sorriso de Julieta. Fecha os olhos, e, por um segundo, imagina seu abraço. Embora não consiga ver seu rosto - aquele rosto que ele talvez conheça, mas não admita -, imagina seu sorriso e o acha o mais lindo de todos.
Tenho estado ansioso para assistir a uma das estreias cinematográficas de 2016. Para muitas, mas para uma, que poucos amigos compartilham na mesma intensidade - a de Snoopy & Charlie Brown - Penauts, o Filme. Por mais bobo ou infantil que pareça, Charlie e seus amigos me deram, ao longo da vida, intensas aulas de sensibilidade.
A infância acompanhando Charlie e seus amigos me ensinou muito sobre diversas coisas. Sobre a dificuldade de Charlie em entregar um cartão de amor a uma menininha ruiva que nem sabia que ele existia. Sobre a autoconfiança de Sally em acreditar que Linus era seu "fofinho lindo", que lhe compraria uma caixa de doces em forma de coração. Sobre o gosto refinado de Schroeder, e sua paixão pelas músicas de Beethoven. Sobre os planos de Linus, de, no futuro, ser infinitamente feliz. Sobre as desvantagens de ser invisível a quem se acha nada diante de alguém incrível. Sobre a possibilidade de se encontrar a cura para a solidão, tristeza, falta de luz no fim do túnel ou falta de esperança.
Dentre outras coisas, Charlie Brown me ensinou uma esperança equilibrista que só as crianças da ficção - e ainda guiadas pelos traços e palavras de Charles M. Schulz - podem nos ensinar.
Como todxs que acompanham o blog sabem, sou fã de Glee. O seriado musical, encerrado em 2014, nas cinco das seis temporadas que assisti, me presenteou com lições incríveis sobre vida, diversidade e aceitação do outro. Além disso, a cada episódio, somos brindados com excelentes números musicais, dos quais escolhi meus vinte prediletos.
Atenção: o post pode conter SPOILERS sobre a série!
20. If I Were a Boy (4ª Temporada)
A discussão de gênero na série - que já havia passado pelos debates sobre homoafetividade, com Kurt, Blaine, Karofsky, Santana e Brittany, bem como sobre violência contra a mulher com Shanon - chega à discussão sobre transfobia com Unique Adams, uma menina que nasceu em um corpo de menino, no qual não se reconhece. Nenhuma canção melhor do que If I Were a Boy, imortalizada na voz de Beyoncé, e que aqui ganha outro significado.
19. True Colors (1ª Temporada)
Sem movimentos bruscos. Uma canção cantada nos banquinhos. Essa é a ideia da versão que o New Directions dá à clássica canção de Cyndi Lauper, num dos primeiros solos que Tina ganharia ao longo da série.
18. Let It Go (6ª Temporada)
Ainda não assisti à 6ª temporada, mas nela está um dos meus clipes prediletos. Rachel Barry cantando a clássica música de Frozen marca o momento final da série, sobre o qual não posso falar muito por não conhecer. Mas já adoro o clipe!
17. Alone (1ª Temporada)
April Rodes é uma força da natureza. Bonita, descolada e extremamente problemática, tanto quanto talentosa, ela é chamada para dar vida ao New Directions. A contemporânea de escola, e paixonite adolescente de Will Schuester, sobe ao karaokê com seu amigo e cantam uma ótima versão da canção do Heart.
16. Like a Virgin (1ª Temporada)
A rainha do pop não podia ficar de fora. E, no episódio dedicado a Madonna, vários personagens estariam prestes a perder a virgindade. Finn, Rachel e Emma - cada um com seu par - têm nessa situação a oportunidade para uma versão muito bacana de Like a Virgin.
15. Toxic (1ª Temporada)
A "explosão sexual" causada pelas canções de Britney Spears é levada aos limites com a apresentação do New Directions, num evento da escola. Will Schuester e seus alunos levam à loucura todos os alunos e alunas do McKinlley.
14. Just The Way Your Are (2ª Temporada)
O casamento de Burt e Carole, respectivamente os pais de Kurt e Finn, é marcado por uma homenagem deste ao seu novo irmão. Sentindo-se culpado por não defender Kurt contra os ataques homofóbicos que sofrera de Karofsky, Finn decide criar uma oportunidade para mostrar sua fraternidade pelo garoto. Daí surge uma bela versão da canção de Bruno Mars.
13. Rumours Has It/Someone Like You (3ª Temporada)
Quando acontece um racha no New Directions, um grupo dissidente, liderado por Shelby Corcoran, ex-treinadora do Vocal Adrenaline, se destaca. As Progredivas, formadas por Mercedes, Santana, Brittany, Sugar e algumas cheerios, cantam um mash-up de duas canções de Adele, num momento crítico da história, quando a sexualidade de Santana e sua relação com Britanny são o foco da história.
12. Somewhere Only We Know (2ª Temporada)
A despedida de Kurt de sua curta passagem pela Academia Dalton é marcada por uma bela homenagem dos Warbles ao seu membro. O namorado do personagem, Blaine, então líder daquele coral, toma a frente de uma linda versão da música eternizada na voz de Keane.
11. (You Drive Me) Crazy/Crazy (4ª Temporada)
Marley Rose é uma das minhas personagens prediletas da série. Seria possível fazer uma lista apenas com suas canções, mas escolhi um belo mash-up, cantada por ela e Jake, de Britney Spears e Aerosmith, apenas numa versão de vozes e violão.
10. Imagine (1ª Temporada)
Uma das apresentações mais tocantes de Glee é uma versão da inesquecível canção de John Lennon. Quando conhece o Coral de Surdos com quem disputariam as seccionais, os membros da escola compreendem que seus vozeirões nada serão sem uma dose de sentimentos, de alma, que precisariam colocar em suas canções.
9. Dream On (1ª Temporada)
A participação de Neil Patrick Harris, nosso eterno Barney, em Glee, não poderia ficar de fora. Um dos atores mais completos dos Estados Unidos interpreta Bryan Ryan, um ex-membro do clube do coral do McKinlley, contemporâneo de escola de Will Schuester, e que se tornou um ressentido inimigo das artes. Para tentar fazer Ryan retomar seus sonhos, Will o incentiva a fazer um teste para interpretar Jean Valjean numa encenação de Os Miseráveis, papel que os dois terminam disputando. O resultado é uma versão incrível de uma canção clássica do Aerosmith.
8. Umbrella/Singing in the Rain (2ª Temporada)
Um guarda-chuva amarelo entre vários cinzentos, e é óbvio que essa performance precisaria estar nesse blog! O mash-up entre Umbrella, clássico de Rihanna, com a canção-título do filme Cantando na Chuva, uniu Will Schuester e a professora substituta Holly Hollyday (lindamente interpretada por Gwyneth Paltrow) numa tentativa de modernizar uma canção clássica. O resultado é um clipe ao mesmo tempo pop e cult, típico da série.
7. Total Eclipe of the Heart (1ª Temporada)
A clássica música romântica de Bonnie Tyler torna-se uma das melhores já cantadas pela sempre excelente Lea Michele. Rachel, num dos episódios em que consegue ganhar a antipatia de seus três pretendentes - Finn, Puck e Jessie - faz uma bela performance dessa canção, juntamente com os três.
6. Touch Touch Touch Me (2ª Temporada)
A tentativa de fazer uma versão do Rock Horror pelo clube do coral do McKinlley leva Emma Pittsbury - apaixonada pelo musical e por Will Schuester, embora, nesse momento, namorando com o dentista Carl - a devanear com seus sentimentos sobre o professor, chegando a fazer um número de uma das mais provocantes músicas do espetáculo, levando Will à loucura. Ver Jayma Mays cantando uma música eternizada por Susan Sarandon no filme homônimo ao espetáculo, com seus agudos extremamente afinados, é uma atração à parte!
5. Bye Bye Bye/I Want It That Way (4ª Temporada)
O desentendimento entre Will Schuester e Finn, dois melhores amigos que se afastam após o beijo involuntário de Finn em Emma, tem como ápice uma disputa musical, um mash-up de duas boy bands rivais: NSYNC e Backstreet Boys. O resultado é um belo encontro entre os dois, que conta com a participação dos demais membros masculinos do Glee Club.
4. Starships (3ª Temporada)
Se o New Directions é a estrela da série, seu principal concorrente, o Vocal Adrenaline, clube do coral do colégio Carmel, encontra em Unique seu melhor nome após a saída de Jessie St. James. A apresentação do clube nas nacionais da 3ª temporada é marcada por uma versão incrível do sucesso de Nick Minaj.
3. Americano/Dance Again (4ª Temporada)
A participação de Kate Hudson na série não podia ser mais emblemática. A voluptuosa professora de dança da NYADA, que passa a infernizar a vida de Rachel Barry, é uma força da natureza, em suas curvas, seu ritmo e sua voz. Linda, sensual e provocativa, July é uma estrela ressentida por ter fracassado na Broadway, transformando a vida de seus alunos e alunas em algo bem distante de um mar de rosas. O mash-up das canções de Lady Gaga e Jennifer Lopez resulta num espetáculo.
2. Paradise By The Dashboard Light (3ª Temporada)
A meu ver, a melhor apresentação do New Directions em um campeonato é essa canção de Jim Steinman, que marca as nacionais da 3ª temporada. É perceptível que o entrosamento dos membros - na melhor formação que tiveram em todos os tempos - é perfeita!
1. Don't Stop Believin' (1ª Temporada)
O vencedor, não apenas por pura nostalgia, mas por ser, a meu ver, a grande alma da série, e a maior de todas as lições deixadas. A canção do Journey, um clássico do rock norte-americano, ganhou vida própria no episódio piloto de Glee, quando os seis primeiros integrantes do New Directions - Finn, Rachel, Kurt, Mercedes, Tina e Artie - entendem, e convencem Will Schuester, um sonhador incansável, que os problemas estruturais não impedirão de realizar seus sonhos.
Ele não tinha uma flor para oferecer. Não sabia se ainda se usavam flores. Talvez não. Ele gostava de falar, mas na frente dela ficava estranhamente mudo ou sem as palavras certas. Terminava, quase sempre, parecendo um menino sem jeito, com gestos estranhos e desconexos. Seu rosto, suas expressões, não conseguiam dizer muita coisa. Apenas, talvez, se alguém conseguisse penetrar profundamente nos seus olhos, e perceber que eles brilhavam de um jeito diferente. Ele se punia por não conseguir agir como os personagens dos filmes românticos que tanto gostava de assistir. Parece que os assuntos, as situações, nos filmes, apareciam, se colocavam, no lugar certo e na hora certo.
Todas as coisas que ele sabia, todo o conhecimento que pensava ter acumulado ao longo dos anos de sua vida, pareciam não significar nada quando se tratava daquele momento. Em momentos assim, ele chegava a pensar no quão arrogante podia ter sido ao achar que sabia tanto. Talvez ele até soubesse escrever sobre o que sentia, mas olhos nos olhos, tudo era tão mais difícil...
Depois, ele sempre conseguia imaginar uma forma de ter dito algo, de ter falado a coisa certa no lugar certo. Mas só depois, e aí, do que adiantava? Ele suspirava fundo, e quando achava que talvez fosse melhor esquecer, ele ouvia uma música que saía do seu notebook, que despertava novamente sua esperança.
No fundo, ele era um bobo romântico. E sempre seria, não conseguia ser ou agir de um jeito diferente, embora na vida tivesse tentado algumas vezes, sempre em vão. Ele confessava seus sentimentos de um jeito tão arriscado que às vezes parecia não ter medo de andar sobre a corda bamba. Não por coragem, mas pelo medo profundo de ser sufocado pelas palavras que não disse.
Como um aspirante a herói, ele às vezes achava que metia os pés pelas mãos, quando achava que salvava alguém que nem mesmo estava em perigo. Como um certo arquiteto da ficção, cuja história ele havia chegado a desconfiar ter sido baseada na sua vida, ele temia que seu jeito crônico de lidar com os sentimentos o levasse sempre ao fracasso. Como Dom Quixote, um dos personagens da literatura universal pelo qual tinha um apego inexplicável, ele continuava nutrindo um amor irremediável e lutando pelas causas aparentemente perdidas.
Já parei para imaginar a vida como um grande poema de Mário Quintana. Um poema que, ao mesmo tempo, falasse de meninices e de coisas sérias, que filosofasse sobre o mundo como quem sobe numa árvore.
A vida, quando quintana-se, torna-se como aquela rua dos cataventos, escura e sombria, sobrevoada por aves de rapina, aves da noite, que esperam a morte chegar para tomar os corpos.
A vida, quando quintana-se, pode também tornar-se um abrir da janela, um respiro para quem vive dentro de uma cela abafada.
A vida, quando quintana-se, pode ser como aqueles cucos, aqueles antigos relógios de parede, que devora as gerações de famílias com seu implacável e tirânico tempo.
A vida, quando quintana-se, pode ser como os pássaros que, como os poemas, chegam e pousam, mas também podem bater as asas e voarem para lugares inusitados e intempestivos.
A vida, quando quintana-se, pode ser como aquela ruazinha que dorme, com o vento, enovelado como um cão, na calçada, que escuta meus passos pela madrugada.
A vida, quando quintana-se, pode olhar o mundo lá do décimo-segundo andar do ano, ao lado de uma louca chamada Esperança, que, de lá, lança-se no abismo e cai lá embaixo, outra vez criança.
A vida, quando quintana-se, pode ser como alguém que olha as pedras que atravancam-lhe o caminho. Se essas pedras interrompem, se nos impedem, precisamos saber que elas passarão. Nós, todos nós, passarinho.
"Quem anda de cabeça para baixo, senhoras e senhores, quem anda de cabeça para baixo tem o céu como abismo." (Paul Celan)
Um dia, um menino aparece caminhando tranquilamente, de cabeça para baixo, com os pés no teto de sua casa, desafiando a lógica e as leis da gravidade, simplesmente porque ninguém jamais o disse que aquilo era impossível. Essa é uma das imagens que povoa minha cabeça desde a infância, já naquela época, como uma metáfora da possibilidade de fazer aquilo que se julga fora de cogitação.
Na verdade, confesso que sempre fui seduzido pelo improvável e pelo impossível. Talvez isso explique minha paixão, sempre confessa, por séries de ficção, por filmes de fantasia, por livros sobre magia e aventuras. Não necessariamente o enfrentamento da realidade, mas suas linhas de fuga. Como Harry Potter, que viveu sua infância isolado no armário embaixo da escada de seus odiosos tios "trouxas", sonhei a vida inteira que haveria de chegar uma coruja (também metafórica) que me conduziria para o lado de fora, o lado oculto da lua, aquele lugar que poucos ocuparam, seja por não conhecerem, seja por acharem absurdo demais para habitarem.
Como historiador, sempre tive um fascínio pelo que há do outro lado da falésia. Essa outra metáfora - lançada pelo jesuíta francês Michel de Certeau, e apropriada pelo historiador da leitura Roger Chartier - representava justamente o inseguro, a incerteza que inquietava os historiadores após a revolução causada, na primeira metade do século XX, ao abrir o saber histórico a novos objetos, novos problemas e novas abordagens. Estar à beira da falésia seria estar correndo os riscos da fragmentação, da explosão em imprevisíveis significados, à beira de um possível colapso que causava e ainda causa medo.
Da minha parte, sempre me apaixonei pelas falésias. A falésia metafórica dos historiadores, que significa esse lado oculto, incerto e impreciso, que ampliava as possibilidades, de alguma forma, me lembrou essa outra metáfora do impossível. Estar para além da falésia, na história e na vida (haveria diferença?) seria se permitir, tal como nos indica o escritor Paul Celan, andar de cabeça para baixo. Seria se permitir o que muitos disseram ser impossível fazer, ampliar as possibilidades e desafiar os limites. Mais do que isso, seria viver, escrever como um "cavaleiro bárbaro", que, ao desafiar o mundo e a lógica, encontra-se alegremente com seus próprios sonhos.
Penso ser necessários que haja no mundo mais pessoas que se permitam andar de cabeça para baixo. Que se permitam descer as falésias - utilizando aparelhos de segurança ou saltando-as livremente. Que se permitam ser errantes pelas fronteiras, que busquem o além sem medo das tiranias do tempo. Principalmente, que se permitam afetar-se alegremente pelo desafio e pelo risco de errar - nos dois sentidos: o da errância e o do erro. Que saúdem alegremente o abismo, e o tratem como um velho amigo. Que desenvolvam a capacidade de viver plenamente seus encontros inéditos com o mundo, estampando no rosto um sorriso nos lábios.