domingo, 28 de fevereiro de 2016

Casa

Talvez, a nossa grande procura seja pela casa da gente
Aquele lugar tranquilo e aconchegante em que nos sentimos em paz
Talvez, a nossa grande procura seja por aquele lugar limpo, onde as coisas estão no lugar
Talvez seja por nossa bagunça, profundamente organizada

Provavelmente nossa casa é qualquer lugar onde temos o direito
de sermos nós mesmos e estarmos vivos
Talvez seja casa aquele lugar que chamamos

Talvez seja aquele abraço no ônibus gelado de madrugada
Talvez seja aquele sonho que a gente, no fundo, já se conformou que não vai se realizar
Talvez seja o colo quando bate a angústia
O beijo que chega de surpresa
A mão que acalenta a dor de cabeça, o estresse e o medo
Aquele sorriso que se abre quando a gente chega
Aquele sorriso bobo que a gente dá quando olha
Talvez casa seja aquela palavra não dita, mas que já foi compreendida
Talvez casa seja aquele se aconchegar e encontrar uma respiração vacilante no sono alheio
Talvez casa seja um roçar leve na pele
Ou o olhar com um calor que acolhe
A mão que toca o peito e espera sentir o coração bater
A conversa sobre bobagem
Aquele segredo que a gente conta
Aquele toque no cabelo com as pontas dos dedos
O suspiro que a gente entende

Talvez casa seja aquele coração que aceita receber aquele fiapo da gente, apesar de tudo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Roteiro para um filme de amor

Para ler ao som dessa música:



O filme abre numa cena numa viela, provavelmente de uma grande cidade. Prédios altos e antigos fazem sombra ao entardecer que torna lilás o céu daquele lugar, um pedaço de Veneza em qualquer lugar. Ao fundo, acordes de violão e um cantor de rua entoa uma balada romântica, como que anunciando o que viria em seguida. Não é um filme surpreendente. Seu roteiro poderia estar escrito no guardanapo de um bar à beira dos canais espalhados por aquela cidade bucólica. O rapaz, com a barba insistindo em despontar em seu rosto, olha pros lados, talvez à procura de uma Julieta em um dos balcões que imagina nas janelas daqueles prédios. Não... ali é Veneza, não Verona.

Ele não tem rumo. Sua camiseta branca, por baixo da camisa xadrez, seu jeans surrado e seus tênis cinzas não depõem tanto a seu favor. É um sujeito qualquer, andando sem rumo por uma cidade onde todos parecem estar fazendo o que sempre desejaram, ao lado das pessoas que amam. Ele vive uma solidão na qual insistiu durante um bom tempo, e hoje, quando não mais a deseja, parece ter dificuldade de largar, seja pelas circunstâncias, seja por sua própria culpa.

Ele não é nenhum Romeu. Consciente de que não tomaria veneno por ninguém que conhecera até ali, sente-se um pierrot triste em meio ao carnaval, ao dia e noite dos mascaradas que circulam, silenciosos em sua felicidade estrondosa, por entre ele. E ele, tão invisível, olha pro horizonte e vê o mar. O mar que se abre à sua frente - ele, que está entre os prédios antigos que lhe fazem sombra, entre as sacadas sem balcões nem Julietas - é o mar que se espalha por entre os canais da cidade, por onde circulam os barcos dos namorados, e onde, ao longe, navega um embarcadiço solitário. Teria ele uma amada em algum lugar, o esperando, ou seria como ele, à procura de alguém naquela terceira margem do mundo?

No passado, ele desejara viver plenamente seus sonhos individuais. Declarara não abrir mão de seus planos por quem quer que fosse. Num passado menos distante, esteve disposto a abrir mão de tudo em nome de alguém. No presente, ele deseja apenas que uma Julieta na sacada lhe apareça e lhe lance um sorriso. Ele deseja apenas acordar ao lado de um sorriso sincero, de um abraço na madrugada que o acolha quando sente frio ou medo.

Aquele sorriso inalcançável de uma Julieta que ele talvez nem conheça (ou conhece?), que aparece refletido no mar, parece estar no céu que muda do lilás para um escuro, parece ser o formato novo da lua, que continua sendo dos namorados, apesar dos astronautas e dos dragões. Ele caminha e pisa numa pequena poça d'água que lhe molha o tênis, escurecendo o cinza do couro. Choveu mais cedo e a cidade, alagada pelos canais que trazem a água do mar, o barcos e embarcadiços, tem pequenos montes de água espalhados, refletindo aquela mesma lua/sorriso de Julieta que ele via. Ele olha novamente para as janelas, à espera do sorriso de Julieta. Fecha os olhos, e, por um segundo, imagina seu abraço. Embora não consiga ver seu rosto - aquele rosto que ele talvez conheça, mas não admita -, imagina seu sorriso e o acha o mais lindo de todos.